02/11/2013

"Somos a primeira pessoa do plural" - por José Luís Peixoto

Imagem do filme Baraka
«Estamos tão perto uns dos outros. Somos contemporâneos, podemos juntar-nos na mesma frase, conjugarmo-nos no mesmo verbo e, no entanto, carregamos um invisível que nos afasta. Ouvimos os vizinhos de cima a arrastarem cadeiras, a atravessarem o corredor com sapatos de salto alto, a sua roupa molhada pinga sobre a nossa roupa a secar; ouvimos a voz dos vizinhos de baixo, dão gargalhadas, a nossa roupa molhada pinga sobre a roupa deles a secar; cheiramos as torradas dos vizinhos do lado, ouvimo-los a chamar o elevador e, no entanto, o nosso maior problema não é apenas não nos reconhecermos na rua. O nosso problema grande é estarmos convencidos que os problemas deles não nos dizem respeito. A nossa tragédia é acharmos que não temos nada a ver com isso.

Há três ou quatro anos, caminhava com um conhecido no aeroporto. De repente, ouviu-se um estalido. Ele agarrou-se ao peito com as duas mãos, caiu de joelhos e, pálido, esperou por morrer. Não morreu. Tinha-lhe rebentado um isqueiro no bolso da camisa. Aliviado, encostado a um balcão, a beber um copo de água, explicou que esse ardor repentino e esse susto pareceram-lhe um ataque cardíaco. Nunca tinha tido um ataque cardíaco antes, por isso confiou em descrições vagas, a que nunca tinha realmente prestado muita atenção.

Há alguns anos também, talvez um pouco mais do que três ou quatro, tinha acabado de participar num jantar cordial, reconfortante. Toda a gente estava bem disposta, à porta dos anfitriões, longa despedida, graças, à espera de táxi. De repente, tocou o telefone de um senhor com quem tinha estado a conversar durante todo o serão. Ninguém reparou nesse telefonema até ao momento em que o senhor começou a chorar convulsivamente. Ficámos todos a olhar sem saber como chegar até ele. Tínhamos braços, estendíamo-los na sua direcção, mas continuavam distantes.

Irritamo-nos com a existência uns dos outros. Fazemos sinais de luzes àquele homem com setenta anos, num carro dos anos setenta, que anda a setenta quilómetros por hora na auto-estrada. Contrariados, esperamos por aquela pessoa que atravessa a passadeira, enchemos as bochechas de ar e sopramos. Impacientes, batemos no volante. Daí a minutos, depois de estacionarmos o carro, somos essa pessoa a atravessar a passadeira. Da mesma maneira, daqui a algum tempo, não muito, seremos esse homem com setenta, dos setenta, a setenta. O tempo passa. Se deitarmos lixo para o chão, alguém o apanhará.

Um amigo que teve um AVC, que passou por uma reabilitação profunda, que enfrentou a morte e a paralisia, depois de anos de fisioterapia, depois de esforço gigante e sofrimento gigante, falou-me da forma como esse susto muda tudo. Passa-se a apreciar aquilo que realmente importa. A imensa maioria das preocupações transformam-se em luxos ridículos, desprezíveis, alimentados pela cegueira. Após essa experiência de quase morte, ganha-se uma nitidez invulgar, que, no entanto, esteve sempre lá. Para percebê-la, bastava levar a sério a promessa de transitoriedade de tudo e, também, levar a sério essa palavra, esse planeta: o amor. Ao ouvi-lo, fui capaz de entender aquilo que dizia. Depois, também fui capaz de entender quando me disse: mas, sabes, ao fim de algum tempo, esquecemo-nos, voltamos a tomar tudo por garantido e voltamos a cometer os mesmos erros.

Repito para mim próprio: estamos tão perto uns dos outros. Não há nenhum motivo para acreditarmos que ganhamos se os outros perderem. Os outros não são outros porque levam muito daquilo que nos pertence e que só pode existir sendo levado por eles. Eles definem-nos tanto quanto nós os definimos a eles. Eles são nós. Eles somos nós. Se tivermos essa consciência, podemos usar todo o seu tamanho. Mesmo que pudéssemos existir sozinhos, de olhos fechados, com os ouvidos tapados, seríamos já bastante grandes, mas existe algo muito maior do que nós. Fazemos parte dessa imensidão. Somos essa imensidão que, vista daqui, parece infinita.»

A tua falta incomoda-me, meu anjo!







Faltam as manhãs contigo, faltam as noites em que acordo com o barulho da tua ausência, não entendo porque me deixas-te o cheiro impregnado dos teus sonhos, que agora fazem parte dos meus, num vazio ensurdecedor de dor e ansiedade.

Acendo a vela com aquela fragrância escolhida por ti com a plena certeza que os anjos voltam sempre aos lugares onde foram felizes.

Porque não me falas, meu anjo?

Porque a sombra das tuas asas me faz tanta falta?

Dou por mim saboreando o ontem, porque o hoje é tão mais amargo...e o amanhã é a cortina que absorve todos os sabores, até o teu que é indiscutivelmente único:

Perco-me nas ruas de sentido proibido, transporto em mim todos os ingredientes deliciosos para que seja mais fácil encontrar o teu destino.

Navego mar adentro em direção ao teu porto, como se fosse fácil saber o mar em que um dia naufragas-te e te salvas-te, sabendo eu que fui a tua boia de salvação.

Hoje, sou eu a ouvir o teu silêncio,hoje sou eu que perdi as minhas asas, e nada sei senão imaginar que o meu mar está tão longe do teu céu.

Hoje sou eu a chorar a tua dor,a correr em contra mão, a desnudar o que resta de mim, estou tão só que o meu olhar se perde para lá do horizonte, estou tão ausente, que oiço o silêncio no meio da multidão barulhenta.

Só sei que me fazes falta com a luz do teu sorriso,faz-me falta olhar e contemplar o teu rosto, fazes-me tanta falta, que sinto uma asfixia que me imobiliza,fico sem luz e sem amanhã.
Perdoa-me se ainda sabes onde mora a luz dos meus olhos e não a queres acender.

Roubas-te-me as asas e partis-te...

Sinto o céu cair onde já não há chão...

Toia ( cartas para um anjo)

01/11/2013

O Amor, Meu Amor

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

Mia Couto, in "idades cidades divindades"

19/02/2012

Vamos...

Vá lá...anda! Vamos!
Dou-te a mão, dás-me a mão. Ainda me falas de liberdade, mas nos teus olhos a luz do sol reflecte paz,adquire outra tonalidade com o aroma de fruta acabada de colher.
Gosto das palavras, dos gestos, enquanto falas, levas-me nas frases, como se metade de mim fosse a bagagem trivial nas tuas viagens em pensamento. Enfeitas com cores a essência do momento. E, sabes!!! Aconteça o que acontecer, mesmo sem nada me dizeres, já me encantas.
Mas não te iludas, o canto da sereia é tentação permanente... Sem te dares conta, as palavras começam a ficar gastas, sem essência, desvanecem-se em nada. E o frio sobrepõe-se à envolvência do abraço.
Liberta-te, solta-te da sedução das suas amarras. Depois, sem pressa, pinta cada palavra com aquilo que realmente sentes. Vais ver que, a pouco e pouco, elas ganham sentido por si, mas em função de ti.
Quando elas se soltam és tu que te soltas, és tu que ganhas asas,e as palavras apenas ficam caladas a admirar a paisagem, vista bem lá de cima.
Sabes? Não quero ser o anjo que domina nem o saltimbanco que te anima no tristes dias, nem nas negras noites, quisera eu ser luz, ser vida, ser o brilho do olhar em hora de despedida, e na cor da tinta que escrevo ditar o nome e a palavra chave...
Não sei escrever ditei!
Depois envolvi a caneta, baixei os olhos e as palavras surgiram, pareciam estrelas cadentes, hoje, não sei onde param, apanhei algumas delas para partilhar contigo...
Apenas estas!!!
As outras............voaram..........

Toia (in renascer 2012)

17/01/2012

O dia veio buscar-me...

Roubou parte de mim..não sei quanto me levou?…
Mas faltou em mim o espaço onde guardava as lembranças.
Teria sido hoje o dia para rever as coisas esquecidas?
Teria sido a razão do meu dia não se lembrar de terminar.
Eram duas horas da manhã e tudo continuava em silêncio, as palavras estavam ali naquele amontoado de emoções…Quem guarda acha!!! Já dizia a avó, e eu procurei no sítio onde guardara, as memórias dum dia de sol em que o dia não se quis deitar…Suspirou, num murmúrio rendido ao cansaço fechou os olhos,foi para onde moram todos os pores de sol…alquimia do passado, onde ficam as pétalas de rosas e as jóias desenhadas pelo vento….para me mostrar, coisas, esquecidas, antigas de menina que não sabe chorar.
Utopia do pensamento, virei a página e escrevi…falta-me um a” para escrever amor, e dos ps” que encontrei nenhum queria ser a primeira letra de paixão… Dizia baixinho o h” para que precisam de mim para escrever Hoje?...para que existo se ninguém fala de mim? Soprando ao ouvido do amanhã perguntei…Tesouro (mal guardados) alquimia, que eu amava?..(sei eu que hoje falo da química da alma)
Não menina, no escuro das noites nada me podes dizer, porque o silêncio do sol não tem preço, e ele, foi dormir, e com ele levou todo o ontem, todo o hoje, se te demorares por aqui leva também o amanhã...
Contavam as fadas em leves murmúrios que os assobios do vento eram aventuras de menina que sonhava! Desenhava o que sentia, e daquele amontoado de palavras nasceu a minha nota…
Pequenina como uma gota de orvalho da manhã, que no primeiro raio do sol desaparece.! O dia veio buscar-me, levou-me para o amanhã…
 

Toia (renascer 2012)

03/08/2011

Hoje........


Quero o sol na minha janela
Quero  os restos  de orvalho na minha madrugada
E acordar com a alma descansada…
Neste reino poderoso do meu querer
Não são rosas que tenho para te dar, mas um sol infinito para as criar…
Não sei de quanta cor é o teu mundo…nem quanta dor tens num segundo
Mas se sou o reino prometido e o encanto do amor compreendido
 
By Toia

09/07/2011

Não........posso............



Não posso morrer hoje, como morre a noite!
Posso deitar-me e adormecer; e ter uma cama de pedra; e um cobertor de flores e não ouvir senão o rumor dos passos de quem não dorme!
...plantas que despontam na noite, e o zumbir dos insectos, encandeados pelas lâmpadas... no escuro, resta o barulho das ondas do mar numa sinfonia profunda onde o dia nos espera!

Apenas devo acordar...


By Toia

Sonho de menina